Aventura nas asas do ecoturismo

JC OnLine
Turismo
Recife, Terça-feira, 10 de Dezembro de 2002

Julliana de Melo

Há quem diga que entrar no meio do mato para observar pássaros seja coisa de doido ou de quem não tem nada melhor para fazer. Tudo não passa de pura desinformação. A prática possui milhares de adeptos espalhados pelo mundo, mas ainda é pouco difundida no Brasil. Quem já experimentou, no entanto, garante: o orniturismo ou birdwatching, como é denominada a atividade, veio para ficar. Em Pernambuco, pequenos grupos começam a descobrir os encantos deste segmento do ecoturismo.
Apesar de o Brasil ocupar o terceiro lugar em diversidade na avifauna mundial, ficando atrás apenas da Colômbia e do Peru, a observação de aves no País ainda é restrita à Amazônia e ao Pantanal. O que pouca gente sabe é que a atividade pode ser feita aqui mesmo no Estado, onde existe bons pedaços de Mata Atlântica e áreas de Caatinga ainda preservadas. Lugares como Buíque, Bonito, Moreno, Cabo de Santo Agostinho, Itamaracá e Fernando de Noronha são paradas obrigatórias para os ornituristas.
Segundo a Associação Observadores de Aves de Pernambuco (OAP), existem 503 espécies de aves catalogadas no território pernambucano. Os números colocam o Estado na rota dos ecologistas. De acordo com o biólogo da OAP Gilmar Farias, o melhor local para praticar a atividade é dentro de Unidades de Conservação. Em Pernambuco existem um pouco mais de 70. "Para este tipo de atividade é necessário licença do IBAMA pois é preciso verificar se ela é compatível com o plano de manejo", alerta.
Ao penetrar no habitat natural das aves, os visitantes são estimulados a desenvolver ações de proteção e conservação do meio ambiente. É o que os adeptos chamam de trocar o "badoque pelo binóculo". "A ornitologia amadora é uma opção de lazer acessível a todas as idades e, além de conhecer e respeitar as aves, valoriza o contato saudável com diversos ambientes naturais."
Durante o passeio, os visitantes percebem as formas, cores e movimentos dos pássaros e tentam decodificar o som que vem das matas para descobrir de qual ave é determinado canto. Não é à toa que muitos adeptos costumam enxergar um lado terapêutico na atividade, que mescla também caminhadas, escaladas e muita contemplação.

Roteiros
Veja onde observar aves em Pernambuco

No município agrestino de Bonito, a 136 quilômetros do Recife, a observação de aves é feita entre cachoeiras, riachos, trilhas e mirantes de reservas de Mata Atlântica. É possível encontrar mais de 80 espécies de aves em um único dia de observação. Só nos ambientes alagados pode-se ver o Mergulhão-caçador (Tachybaptus dominicus), o Socó-boi (Tigrisoma lineatum), e o Socoí-vermelho (Ixobrychus exilis). Nas cachoeiras, principalmente a Barra Azul e Véu da Noiva, bandos de Andorinhões (Cypseloides senex) atravessam a lâmina d"água para se abrigar nas rochas.
O Vale do Catimbau, em Buíque, surge no roteiro dos apreciadores de gaviões. Destaque para a Águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) e o Gavião-de-cauda-branca (Buteo albicaudatus). Outras espécies, de porte menor, povoam regiões mais altas. A quase 1.000 metros de altitude é possível observar a Noivinha-branca (Xolmis irupero) e o Caneleiro (Casiornis fusca). O lugar se destaca pela abundância do verde e pelo exótico vale das pedras e cavernas, lugar propício para as caminhadas. Nas trilhas, é comum encontrar o Pintassilva (Carduelis yarellii), espécie ameaçada de extinção.
A operadora Mangaio Ateliê de Turismo leva grupos em viagens de cinco dias a estas localidades, além de organizar excursões para o Sítio Ecológico Imbaúba, no Cabo de Santo Agostinho, e para o Refúgio Ecológico Carnijó, em Moreno. Todos os passeios são orientados por guias ornitólogos e biólogos bilíngües da OAP. A empresa também dispõe uma lista com referências das aves que poderão ser vistas durante a caminhada, facilitando a identificação das espécies.
O birdwatching também pode ser realizado em parques, praças ou jardins, a exemplo do Parque de Dois Irmãos. No Lago do Cavouco, na Universidade Federal de Pernambuco, mais de 50 espécies vivem por lá. No campus da UFRPE mais de 60.

Adeptos
Saiba quem mais pratica o orniturismo no mundo

O Brasil tem 1.678 das 9.951 aves registradas em todo o mundo. De acordo com o Serviço de Pesca e Vida Silvestre dos Estados Unidos, 77 milhões de norte-americanos (quase um quarto da população) participaram de atividades relacionadas com a vida silvestre em 1997.
Desses, cerca de 23,7 milhões viajaram com a intenção de observar, alimentar ou fotografar animais silvestres; e cerca de 18 milhões tiveram interesse em aves. O birdwatching é mais antigo e muito mais intenso em países do hemisfério norte. No Brasil, os turistas mais interessados na observação de aves são estrangeiros.
Ao contrário do que muita gente pensa, para iniciar na atividade não é necessário ser um especialista no assunto. Os iniciantes só precisam ter noções de preservação do meio ambiente e espírito de coletividade. O resto é só prática. Aos poucos e com muita paciência, o ornitólogo amador consegue estimular a percepção visual e auditiva e disciplinar os movimentos, deslocando-se mais devagar. Gestos bruscos e ruídos podem assutar as aves, frustrando o passeio.
Mesmo não sendo profissionais, os praticantes amadores podem dar contribuições importantes à ciência. Tanto que a participação de leigos na observação de aves levou um ornitólogo norte-americano a definir a prática como "uma curiosa mistura de um passatempo popular com uma ciência precisa."

Equipamentos
Veja o que não pode faltar no passeio

O bom observador de aves que se preze não pode deixar de levar para as excursões uma caderneta, para anotar todos os detalhes, e um binóculo, para ver as espécies de perto. Como as aves conseguem distinguir cores e tonalidades que não pertencem ao seu habitat natural, é imprescindível também usar roupas discretas, de preferência camufladas, em tons de verde e marrom.
Muita gente se engana, achando que os binóculos ideais para observação de aves são os com maiores aumentos. Acima de 10 ou 12X, por exemplo, dificulta a focalização da ave. O instrumento mais indicado para a atividade são binóculos com aumentos entre 7 e 10X. Muitas vezes, é necessário a utilização de luneta com tripé, com aumentos variando de 20 a 60X, para a observação de aves que permanecem pousadas a grande distância, como os gaviões.
Para os iniciantes, os guias de campo são fundamentais na identificação das aves. Em geral, em formato de bolso, esses pequenos livretos trazem desenhos e/ou fotos das espécies de determinada região.
Os praticantes profissionais levam na sua bagagem equipamentos mais sofisticados, como os gravadores com antenas parabólicas portáteis ou os microfones direcionais, que gravam apenas o som proveniente de um ponto, eliminando o som ambiental. A técnica do playback é bastante utilizada para provocar a aproximação dos pássaros pelo som.
Os mais experientes, muitas vezes, dispensam os instrumentos por reconhecer as espécies por sua vocalização, seja um canto, pio, chamados ou gritos de alarme. Ah! Não esqueça a máquina fotográfica e a filmadora para registrar todos os detalhes.

Código de Ética
Veja como os observadores de aves devem agir

1. Promova o bem estar das aves e de seu ambiente:

a) apoiando a proteção de habitat importante para as aves;
b) evitando estressar ou expor as aves ao perigo, comportando-se de forma cuidadosa quando em atividade de observação, fotografia, gravação sonora ou filmagem;
c) limitando a utilização de gravações ou outros métodos de atração de aves; nunca usando esses métodos em áreas intensamente utilizadas para observação ou para atrair espécies ameaçadas, em perigo de extinção ou, ainda, de ocorrência rara ou restrita no local;
d) mantendo a distância adequada de ninhos, colônias de nidificação, dormitórios, arenas de exibição ou locais importantes de alimentação. Nestas áreas sensíveis, se for indispensável uma observação demorada, filmagem, fotografia ou gravação sonora, tente usar um anteparo ou esconderijo, tirando proveito da cobertura natural;
e) utilizando com moderação luz artificial ou flash, especialmente para tomadas de curta distância;

2. Antes de comunicar a ocorrência de uma ave rara, avalie o potencial de perturbação para a ave, para o ambiente e para as pessoas naquela localidade e somente prossiga se o acesso à região puder ser controlado, a perturbação minimizada e, se for o caso, tiver sido obtida a permissão do proprietário da área. Os locais de nidificação de aves raras só devem ser divulgados às autoridades competentes;

3. Permaneça nas estradas, trilhas e caminhos onde existirem, em caso contrário, procure reduzir ao mínimo a perturbação ao habitat;

4. Respeite as leis e o direito alheio:

a) não penetrando em propriedade privada sem autorização explícita do proprietário;
b) seguindo todas as leis, normas e regulamentos relativos ao uso de estradas e áreas públicas, tanto em seu país quanto fora dele;
c) sendo cortês em contato com as pessoas. Seu comportamento exemplar gerará boa vontade tanto em relação a outros observadores de aves, quanto às demais pessoas;

5. Assegure-se que os alimentadores, as caixas de nidificação e outros ambientes artificiais para as aves sejam seguros:

a) mantendo os comedouros, os bebedouros, a água e os alimentos livres de impurezas, deterioração ou doenças;
b) limpando e efetuando manutenção regularmente das caixas de nidificação ou ninhos artificiais;
c) cuidando para que as aves não estejam expostas à predação por animais domésticos e outros riscos artificialmente criados, caso esteja atraindo aves em uma determinada área;

6. Observação de aves em Grupo, organizado ou não, requer cuidados suplementares. Cada participante do Grupo, além das obrigações referidas nos itens 1 a 5 antes mencionados, tem responsabilidades como integrante de um Grupo:

a) devendo respeitar os interesses, direitos e habilidades dos demais membros do Grupo, bem como de outras pessoas que estejam praticando esportes ao ar livre;
b) dividindo generosamente seu conhecimento e habilidade com os demais integrantes do Grupo - com as cautelas previstas no item 2 acima - com especial atenção e dedicação aos iniciantes;
c) na hipótese de identificar um comportamento pouco ético de um observador, após avaliar a situação e se achar aconselhável, oferecer a adequada orientação no sentido de fazer cessar a ação imprópria. Se, entretanto, não obtiver êxito, registre o fato e comunique às pessoas e autoridades competentes.

7. Caso seja Líder ou Guia de Grupo, amador ou profissional, esteja ciente de suas responsabilidades adicionais:

a) sendo um exemplo de comportamento ético, ensinando através da palavra e da conduta;
b) formando o Grupo com a quantidade de participantes que limite o impacto ao ambiente e que não interfira com outros utilizando a mesma área;
c) assegurando-se que todos os participantes do Grupo conheçam e pratiquem as regras deste código;
d) identificando e informando ao Grupo sobre qualquer circunstância especial aplicável ao local que está sendo visitado, como, por exemplo, a proibição de utilização de gravadores sonoros.
e) reconhecendo que empresas de turismo têm a obrigação de colocar o interesse do público e o bem estar das aves acima de seus objetivos comerciais;
f) mantendo registro das observações realizadas e documentando ocorrências incomuns para submeter ao conhecimento de organizações apropriadas.

Traduzido e adaptado do The American Birding Association"s Code of Birding Ethics (http://americanbirding.org), por Dagoberto Pinheiro das Chagas

Serviço
Mais informações sobre observação de aves
Observadores de Aves de Pernambuco

Tel.: (81) 3436.0709
E-mail: oap.@oap.org.br

Mangaio Ateliê de Turismo
End.: Rua Marques do Amorim, 307, Sala 12, Boa Vista
Tels.: (81) 3422.3651
Site: www.mangaio.com.br