Aves exóticas pousam em praças e parques da RMR

Diário de Pernambuco
Recife, Domingo, 20 de novembro de 2005
Vida Urbana / Meio Ambiente
Por: Júlia Kacowicz

Natureza II Pássaros de espécies desconhecidas visitam locais urbanos arborizados.

Praças e parques arborizados estão servindo como um trampolim para aves se movimentarem na Região Metropolitana do Recife. Diante da destruição do habitat natural e da oferta de verde nesses locais, os pássaros visitam e se estabelecem em áreas remotas. Estudo da Associação dos Observadores de Aves de Pernambuco (OAP) revelou a presença de 13 espécies desconhecidas ou pouco comuns em nove praças e parques do Recife e de Olinda. Essa movimentação – do local de origem a outros fragmentos – é fundamental para a conservação pois possibilita a reprodução e perpetuação das variedades.

O estudo, apresentado no início do mês no Congresso Brasileiro de Ornitologia (Belém), consolidou importância desses logradouros como corredores ecológicos. “O movimento dentro da cidade faz com que as aves consigam chegar até fragmentos florestais, favorecendo o encontro e a reprodução entre pássaros da mesma espécie. Isso é fundamental para o enriquecimento genético”, afirmou o ornitólogo e um dos autores do estudo Glauco Pereira. Quando os indivíduos ocupam pequenos fragmentos é comum o cruzamento entre familiares, provocando o declínio genético e a extinção do animal. Entre os pássaros listados estão cancão-de-fogo (Taraba major), bico-chato-amarelo (Tolmomyias flaviventris) e figuinha-de-rabo-castanho (Conirostrum speciosum).

A maioria das aves identificadas na pesquisa consegue viver fora da floresta mas precisa de matas próximas para sobreviver. Apenas duas são independentes, o anu-preto (Crotophaga ani) e o bem-te-vi-do-gado (Machetornis rixosa). “Isso justifica o fato das áreas de maiores registros estarem próximas a reservas e matas. Mas também encontramos aves naturais do mangue”, disse Pereira. Segundo o ornitólogo, os registros do estudo indicam o avanço do desmatamento e apontam que as praças e parques estão bem arborizados. Outras espécies vistas (além das citadas no quadro) foram bico-de-agulha (Galbula ruficauda), dorminhoco (Nystalus maculatus) e pica-pau-verde-barrado (Colaptes melanochloros).

Das 13 espécies localizadas, sete estavam no Sítio da Trindade, parque situado na Zona Norte do Recife. “O Sítio da Trindade é atraente pois possui uma vegetação mais densa e variada” esclareceu. O Parque da Jaqueira ficou em segundo lugar e, assim como o sítio, está próximo da Mata de Dois Irmãos. Pereira ressaltou que a maior parte das aves foi encontrada apenas uma vez no local, sendo provavelmente de ocorrência ocasional. Algumas, entretanto, estão se estabelecendo e reproduzindo como o casal do Bem-te-vi-do-gado que foi observado alimentando dois filhotes num dos parques do Recife.

Os pontos do Recife ainda citados no estudo foram as praças de Jardim São Paulo, Tiradentes, Euclides da Cunha, Casa Forte e Parque 13 de Maio. Em Olinda, os pássaros foram vistos na Praça Vitoriano Regueira e Praça do Carmo – ambos próximos ao Jardim Botânico Horto Del Rey. Algumas aves foram observadas em mais de um local como o poaeiro-de-pata-fina (Zimmerius gracilipes), que foi identificado em três lugares no Recife e um em Olinda. “A espécie foi encontrada a primeira vez neste ano em áreas verdes urbanas do Recife e depois foi observada nesses logradouros”, disse Pereira, ressaltando que a espécie pode ter sido pouco notada por habitar as copas das árvores e ter um canto desconhecido.