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Observar aves quebra rotina
Diário de Pernambuco - Diário Rural
Recife, Sexta-feira, 8 de fevereiro de 1991
Por: Ana Paula Carlini
Na Inglaterra, observar aves se transformou num passatempo nacional. O bird watching, como os ingleses costumam chamar, é uma atividade que dá prazer, ajuda quebrar a rotina e, até contribui, como acontece na Grã-Bretanha, para o recenseamento anual da população de aves selvagens. No Brasil, também existe muita gente que inclui na sua hora de recreio, esse tipo de diversão.
O interesse pelos hábitos dos animais silvestres cresceu tanto aqui no país, que começaram se formando alguns grupos, em diversos estados, que saíam em campo para observar aves. Em Pernambuco, foi fundada por Manoel Toscano e Gustavo Pacheco a OAP (Observadores de Aves de Pernambuco) sediada em Boa Viagem. O objetivo do grupo, que há mais de quatro anos vem realizando um trabalho pioneiro de observação de campo, é estudar, conhecer e catalogar a avifauna existente no Estado. Depois eles propõem a enviar todas as informações colhidas a respeito do assunto às universidades e sociedades congêneres, além de facilitar o entendimento dos iniciantes da arte.
Segundo Gustavo Pacheco já foram realizadas mais de 100 observações em vários municípios da Região Metropolitana, zona da mata e agreste. Dessas análises foi possível fazer a catalogação de 208 espécies de aves de um universo de aproximadamente 400 que ocorrem na região. Ele espera que esse número cresça com o surgimento de novos integrantes para a OAP, inclusive, quem pensa em fazer parte de uma organização desse gênero, "basta gostar de aves", enfatiza Gustavo. "O resto, continua o autodidata, é simples, pois além da observação dessas aves, exigir de seus praticantes um grande interesse pela natureza, exige também a aquisição de, apenas, um binóculo, por ser um instrumento indispensável a quem queira se dedicar a essa modalidade de lazer."
Como o passar do tempo o naturalista amador desenvolve sua perspicácia visual e auditiva, aprende a ser paciente e acostuma-se a não fazer gestos bruscos, nem ruídos desnecessários e a deslocar-se discretamente, sem provocar o pânico entre os seres que pretende estabelecer contato. E como as aves possuem capacidade para distinguir cores e tonalidades que não pertencem ao seu habitat natural é imprescindível manter um visual discreto que não se destaque no espaço aberto.
Outra advertência da OAP, é que estudiosos amadores não devem se confiar na memória para registrar as características dos animais encontrados durante suas excursões. Assim, fora o binóculo e trajes em tons claros também é bom carregar consigo uma caderneta de campo para tomar nota do tamanho, cor, tipo, canto, habitat, data, hora e local em que o animal foi encontrado. Caso o pássaro identificado não tenha sido catalogado ainda, ou seja, o observador não tem conhecimento de sua existência, é só reproduzir nas páginas da sua caderneta a figura da ave encontrada. Para esquematizar o desenho, ressalta Gustavo, não precisa ser um desenhista nato, o mais importante é saber reunir os detalhes anatômicos da peça que ajudaram a determinar a ordem, família e os nomes científicos da espécie encontrada.
Há quem diga que sair por aí com uma caderneta na mão e um binóculo procurando algo diferente no ar é coisa de louco ou de desocupado. Mas os fundadores da OAP não gostam de ser chamados de "ornitoloucos" e se defendem dizendo que são apenas ornitologistas amadores, procurando convencer as pessoas a trocarem o badoque, arma usada para matar passarinho, por um instrumento óptico que nos permita observar o cenário mágico cheio de cores e movimentos atraentes, que devem ser preservados. O " troque o badoque por binóculo " é mais que um S.O.S da OAP afirma Gustavo, é uma forma de convidar as pessoas a participarem da aventura que representa o contato com a natureza.
Outro integrante do grupo Manoel Toscano, que estuda esses animais há mais de trinta anos, demonstra a paixão pelas aves no brilho dos olhos e garante que quem entra nesse hobby é difícil sair, pois o assunto não se esgota em si mesmo. De acordo com ele, as aves não estão só sobre nossas cabeças, elas estão nos livros, nas canções, nos poemas e poesias, no folclore, nas mentes e corações de quem sabe tirar bom proveito delas. Um dado curioso relatado por Toscano é que algumas aves ao perceber que seu ninho encontra-se ameaçado, fingem que estão com a asa quebrada para atrair a atenção do predador, quando conseguem afugentá-lo para bem longe do ninho, levantam vôo. Acontecimentos como esse e tantos outros atraem pessoas de todas as idades para grupos como OAP e explicam e até justificam o deslumbramento dos naturalistas amadores pela simples arte de observar.
É possível encontrar, explica Gustavo Pacheco, cerca de quatorze ou mais nomes vulgares numa única ave, o tiziu ( Volatinia jacarina ), por exemplo, conhecido popularmente, sofre desse excesso de apelidos que costumam variar de acordo com a região que ocorre.
Além do arsenal de pseudônimos, esses animais fazem parte também da crença popular e são acusados, muitas vezes, sem ter culpa no cartório. Uma vítima dessas difamações, é a coruja, pois quando ela passa ou pousa no telhado de uma casa, todo mundo acredita que alguém dessa residência deve estar pra morrer. No interior, conta Manoel Toscano, as pessoas abrem uma tesoura em cima da mesa para cortar a mortalha e evitar que o mal aconteça.
Em outros lugares, o tipo de providência é diferente e, ao invés de abrir a tesoura em cima da mesa, costuma-se apelar para ajuda divina como, no caso da coruja. Nossa Senhora do Desterro que segundo os crentes do agouro é a única entidade capaz de desterrar o animal para bem longe, quebrando o feitiço. As lendas também são inúneras, lembra Toscano, para ele, uma das mais interessantes é o da viuvinha, nome vulgar de um pássaro onde o macho é preto e branco e a fêmea é marronzinha. Conta a lenda que dois índios de tribos diferentes se apaixonaram, mas como os pais não concordaram com o namoro, eles resolveram se suicidar para viverem juntos no céu. Ao reecarnarem, voltaram para terra em forma de aves, permanecendo juntos. Por isso explica ele, no lugar em que se vê o macho é certo encontrar a fêmea.
Fora os nomes vulgares como reloginho, rolinha-fogo-apagou, viuvinha, vem-vem, anum-branco e outros nomes engraçados, superstições e lendas, existem também composições que consagraram muitos cantores e compositores. Responsáveis pelo sucesso deles, estão a asa-branca, o carcará, o azulão, o bem-te-vi sempre presente em letras de diversas músicas e modinhas como a do bacurau, ave noturna cujo canto, afirmam os estudiosos, insinuam a frase: " amanhã eu vou ", essa canção envolvendo essa ave faz parte das músicas folclóricas da região de Alagoas e Sergipe e como tantas outras, admite Toscano, há quem se deleite ao escutá-la.
Apesar de todos os conhecimentos que se tem sobre aves, afirma Manoel Toscano, são poucos os livros sobre ornitologia. O sonho dele é um dia poder editar um livro sobre as espécies que ocorrem em Pernambuco. Mas enquanto o sonho de Toscano não se realiza, a OAP se mantém com 136 livros, contendo informações sobre as aves do mundo inteiro, cerca de 80 revistas, 10 discos e alguns apitos de arremedos usados em muitas observações de campo para atrair aves. Outro sonho do naturalista amador é que leis como a do Art. 225, parágrafo 3º, vigente na constituição de 1988 que afirma: " As condutas consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitam os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, as sanções penais e administrativas independente da organização e reparo aos danos causados "
Realmente fossem cumpridas, pois segundo ele essas mudanças ficam sempre no papel e nunca são colocadas em prática. É o caso das providências que o IBAMA e o IBDF tomam com relação as feiras espalhadas pelos bairros do Recife. Ninguém entende, indaga Toscano, como é que as feiras continuam funcionando, os desmatamentos são constantes e os assassinatos permanecem, provocando, como é o caso curió, a extinção do animal em determinados locais.
Conscientizar as autoridades de que alguma coisa precisa ser feita é muito difícil, afirma os integrantes da OAP. " Se a gente for exigir que alguém seja submetido as leis vigentes no código penal e vá preso por agredir qualquer animal silvestre, seremos chamados, como já fomos de doidos e o infrator vai continuar solto ", lamenta Gustavo Pacheco. Infelizmente, continua ele, acham que não é nada de mais matar uma ave, só que quando exterminam uma espécie junto com ela se vai tudo que a envolve. Assim, é uma canção que deixa de existir, é uma inspiração que se acaba para um poema ou poesia que, porventura, pudesse surgir, é uma lenda a menos pra contar e um apelo a mais para se fazer. Tudo isso é provocado por aqueles que não sabem que " preservar o meio ambiente é respeitar a vida ". |
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