As aves na cultura popular

Nome de passarinho nasce na alma e na boca do povo

Jornal Folha do Meio Ambiente
Edição janeiro/fevereiro de 2003

Por: Manoel Toscano de Brito e Gilmar Farias, da OAP (*)

Segundo Helmut Sick, no seu livro Ornitologia Brasileira, o povo ao dar um nome a uma ave procura relacioná-la com o seu colorido, à forma do bico, à alimentação, ao modo de caçar, às manifestações sonoras, nidificação, relação ao tempo, ocupações humanas e lendas. Nomes onomatopaicos parecem estranho à maioria, que não conhece as respectivas manifestações sonoras. Cada nome tem a alma do povo. E os nomes fazem parte da cultura. Um nome popular antigo, arraigado, passa de pai para filho.
Não muda nunca. É baseado nestes valores, que a OAP - Associação de Observadores de Aves de Pernambuco estuda e coleciona há 17 anos nomes populares das aves em Pernambuco, bem como sua presença na cultura popular.
Durante este tempo foram colecionados muitos fatos que envolvem as aves no dia-a-dia das pessoas. Por exemplo, em algumas regiões do interior de Pernambuco acredita-se que a Coruja-rasga-mortalha (Tyto alba) quando passa por cima de uma casa e vocaliza é sinal que alguém vai morrer e a cova é anunciada pela Peitica (Tapera naevia), que vocaliza "buraco feito, buraco feito, buraco feito..." Um mata e o outro enterra, dizem os matutos. "Abre o caminho que ele já vem" diz o Pitiguari (Cyclarhis gujanensis) anunciando a chegada de um visitante. Imediatamente o Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) canta avisa: "Eu bem te vi. Eu bem que disse, eu bem te vi". Algumas histórias de aves já são bastante conhecidas como a da Lavandeira (Fluvicola nengeta). Ela nunca é incomodada, pois acredita-se que ela lavou a roupa do menino Jesus, portanto se estaria cometendo um grande pecado.
Outras crenças são bem regionais. No Recife, por exemplo, acredita-se que criar Pombo doméstico (Columba livia) faz com que se tenha azar e a família empobreça.
Já no município de Gravatá, criar o Cancão (Cyanocorax cyanopogon) possibilitaria a cura da asma. Quando ele é criado em cativeiro, a doença é atraída para si, e o seu dono recupera a saúde.
Outras aves também poderiam auxiliar na cura de enfermidades, o chá de Urubu (Coragyps atratus) serviria para tratar doenças sexualmente transmissíveis.

Em um município do interior de Pernambuco, chamado Limoeiro, ouvimos como o homem do campo interpretava o canto do Galo-de-campina (Paroaria dominicana), é como se ele dissesse: "Mulher é cão/mulher é cão/por causa de mulher lascaram minha cabeça/olha o sangue/olha o sangue" fazendo referência a sua cabeça vermelha.
"O Bacurau (Nyctidromus albicollis) quando perseguido pousa no chão e vira folha" seria esta explicação popular para a cor fuliginosa de sua plumagem.
Existem também ditos populares curiosos envolvendo as aves como, por exemplo, "mais vale um Tico-tico (Zonotrichia capensis) no prato do que um Jacu (Penelope jacucaca) no mato" ou "Indecente que nem Papagaio (Amazona aestiva) de pensão" ou ainda "Se carniça fosse dinheiro Urubu (Coragyps atratus) era marajá."
Nas religiões encontramos também histórias interessantes nas religiões afro-brasileiras. Existem algumas entidades batizadas com nomes de aves como o Caboclo Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), o Caboclo Acauã (Herpetotheres cachinnans), o Caboclo Jaçanã (Jacana jacana) e o Caboclo Martim-pescador (Ceryle torquata). Os cangaceiros do bando de Virgulino Ferreira, o Lampião, recebiam nomes de aves típicas da região de onde viviam: Azulão (Passerina brissonii), Xexéu (Cacicus cela), Curió (Oryzoborus angolensis), Canário (Sicalis flaveola), Zabelê (Crypturelus noctivagus) e Asa-branca (Columba picazuro), entre outros nomes.
A recíproca também é verdadeira. Existem vários tipos de aves que possuem nomes de pessoas: Maria-é-dia (Elaenia flavogaster), Tio-antônio (Synallaxis frontalis), Mané-magro (Sicalis luteola), Pedro-feio (Nystalus maculatus), Maria fita (Coryphospingus pileatus), João-de-barro (Furnarius rufus), João-moleque (Tachyphonus rufus), Frei Vicente (Tangara cayana) e Filipe (Myiophobus fasciatus).
Conhecer a etnobiologia(1), estudar a influência que as aves exercem sobre as pessoas e como elas interpretam o seu comportamento é, de fato, bem curioso e muito gratificante.
Entender como as pessoas comuns compreendem os fenômenos da natureza, é muito importante. Sobretudo no momento de definir o uso dos recursos naturais existentes nos diversos ambientes. E mais, é sempre uma força, uma delicadeza e até uma sabedoria para se respeitar a cultura local.


(*) Manoel Toscano de Brito e Gilmar Farias, da OAP

(1)Etnobiologia é a ciência que estuda a cultura relacionada à nomenclatura e ao uso popular da fauna e flora. O termo tem várias vertentes na etnozoologia, etnoecologia, etnobotânica. A nomenclatura popular é particular de cada cultura, de cada região, por isso alguns animais e plantas recebem um nome num lugar e outro nome em outro. Exemplo: o Vanellus chilensis é conhecido com Teu-Teu, no Nordeste, e como Quero-Quero, no Sul. O Ginglymostoma cirratum é conhecido como Lambaru, no Sul, e como Cação-lixa, no Nordeste.