Aves observadas pela primeira vez no estado

Entre as espécies encontradas, pássaros com poucos registros no Nordeste.

Seis aves foram identificadas pela primeira vez no estado por pesquisadores da Associação dos Observadores de Aves de Pernambuco (OAP) em manguezais, mananciais e matas do Recife e Região Metropolitana. Entre as espécies encontradas, pássaros que costumam habitar o litoral brasileiro e indivíduos com poucos registros no Nordeste, como o chibum (Elaenia chiriquensis), característico do cerrado e regiões campestres. A descoberta reforça o papel desempenhado pela região de refúgio para a avifauna brasileira e ressalta a importância de proteção a esses ambientes.

O biólogo e um dos autores do estudo, Glauco Pereira, esclareceu que é difícil afirmar se as espécies vagavam pela área e nunca tinham sido vistas ou se começaram a freqüentá-la recentemente. “Algumas aves são de difícil identificação e, atualmente, temos mais condições de detectá-las” , constatou. Uma das aves identificadas, a savacu-de-coroa (Nyctanassa vilacea), costuma ocorrer no litoral brasileiro, mas não constava da lista pernambucana. “Ela vem sendo vista desde 2002 nos manguezais da cidade. Talvez não houvesse registro pela falta de observação nessas áreas”, disse.
Apesar de não integrar a lista de aves ameaçadas, o pesquisador ressaltou que as espécies encontradas correm o risco de desaparecer por causa da destruição de seus ambientes naturais. “A maior parte desses pássaros é de ambientes aquáticos e não anda bem”, justificou.

Também foram identificadas como aves aquáticas a colhereiro (Platalea ajaja), a saracurinha-da-mata (Amaurolimnas concolor) e a talha-mar (Rhynchops niger). A sexta ave identificada foi a maguari (Ciconia maguari), vista em campos encharcados com mato alto no bairro do Engenho do Meio e da Cidade Universitária.
O trabalho, executado entre 2002 e 2005, contou com a participação do ornitólogo (pesquisador de aves) Sidnei Dantas e foi apresentado no Congresso Brasileiro de Ornitologia, realizado em Belém. O estudo aponta que algumas aves, como a saracurinha-da-mata, têm poucos registros no país. “Quase ninguém conhece o canto dela e pode ser que ocorra também em outros locais. Mas isso reforça a biodiversidade da avifauna do estado”, disse Pereira. Outras espécies já tinham a ocorrência esperada para o estado, mas não haviam sido registradas, como a talha-mar, que se assemelha a uma gaivota e foi vista na bacia do Pina.

Lista local enriquecida

A observação de pássaros, além de ser um hábito realizado por lazer, traz benefícios científicos. A presença de novas espécies para o estado, descobertas pela Associação dos Observadores de Aves de Pernambuco (OAP), enriquece a lista local e serve como estímulo para a proteção do ambiente. Atualmente, a listagem é formada por 520 aves, das quais 21 estão ameaçadas de extinção. O grupo, criado em 1986 com o objetivo de fazer o levantamento da avifauna local e popularizar a ornitologia, destaca a destruição do habitat natural como principal ameaça aos pássaros.
De acordo com o pesquisador Glauco Pereira, a listagem precisa ser revista para acrescentar as novas espécies descobertas. “A biodiversidade do nosso estado é muito grande e outras espécies ainda deverão ser descobertas” disse. Ele informou que, após a detecção do pássaro, é necessário trocar informações com especialistas de outros estados e países para verificar as características da espécie e ocorrência natural.

A OAP foi o primeiro grupo amador de observadores de aves do estado e um dos pioneiros no país. De 1986 para cá, a associação já identificou várias espécies inéditas e ameaçadas de extinção.
A associação ainda destaca a caça predatória e comercial, a apreensão e captura de aves e a poluição das águas como ameaça à avifauna. A detecção de novas espécies costumam ser resultado de visitas periódicas a praças, florestas, mangues e margens de rios em busca de novas espécies. Os primeiros levantamentos de pássaros para Pernambuco tiveram início, em 1881, com o anatomista britânico William H. Forbes, que catalogou 116 espécies.
Já os registros para a avifauna brasileira começaram a ser feitos bem antes. Ainda em 1500, a primeira observação foi formalizada na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, dom Manuel. Ele mencionava aves chamadas de “furabuchos” e algumas outras como araras, papagaios e pombas.

Diário de Pernambuco
Recife, domingo, 2 de abril de 2006
Vida Urbana
Por: Júlia Kacowicz